QUEM SOMOS

Fazer calar ou calar, deixar ou ficar sem ação ou sem resposta, isso é embatucar. Mas e os Embatucadores, o que são? Além de ser um grupo formado pelo músico e professor Rafael Rip com alunos de uma escola pública em São Paulo, os Embatucadores seguem à risca o que seu nome sugere e deixam seus ouvintes/espectadores sem ação diante de tantos sons criados com instrumentos tão inusitados.

 

Nascido em 2013 como fruto de um projeto pedagógico desenvolvido desde 2003 por Rafael na Escola Estadual Professor Flaminio Favero (Vila Nova Cachoeirinha, Zona Norte), o grupo é uma mistura de muitas referências, desde o americano Stomp (a performance teatral, o uso de instrumentos musicais retirados do lixo) até o paulistano Barbatuques (a percussão corporal), passando pelos mineiros do Uakti, o congolês Kokoko! e, claro, o mago da invenção, Hermeto Pascoal.

 

Entre canos de PVC, baldes, cabos de vassoura, latas e o que mais vier pela frente, o grupo (e o projeto) Embatucadores faz muita música, mas, acima de tudo, muda a vida de muitas crianças e adolescentes da região. “A ideia principal é que os alunos-músicos descobrissem que música pode ser feita com qualquer coisa. Eu tenho esses canos, vou fazer música com eles. Só tenho latinhas ou colheres, então vou fazer música com isso. Eu tenho duas cordas de piano, então vamos amarrar aqui para criar um berimbau de duas tonalidades. A ideia fundamental do grupo é a de resolver problemas. E isso é algo que ajuda muito dentro da escola, muda muito a cabeça das crianças”, explica Rafael.

 

O tempo foi passando e novas demandas, ambições e sonhos foram surgindo.  “De uns anos pra cá, a gente conseguiu essa profissionalização: que essa apresentação que eles faziam na escola para amigos e familiares fosse ganhando corpo a ponto de ficar, inclusive, comercializável. Começamos a receber convites para tocar no Sesc, em escolas particulares, empresas, etc. A partir daí surgiram novos pedidos de apresentações e decidimos ir para rua também, viramos artistas de rua. E sempre tocando as músicas que a gente construiu nesse processo de ensino-aprendizagem.”

 

Com essa profissionalização do grupo vieram também novas responsabilidades para os alunos-músicos: todos têm que saber tocar todos os instrumentos e todos ajudam na montagem do espetáculo, na manutenção dos instrumentos e na proposição de ideias de músicas. Todos são atores e autores do próprio show.

 

Mas falando em música, o processo de composição dos Embatucadores é um capítulo à parte e só mesmo Rafael pode explicar melhor: “Algumas músicas eu componho na flauta e passo pras garrafas, pro metalotubos, pros embatucanos. Outras surgem ali mesmo da experimentação. Eu também falo com os meninos pra pegarem instrumentos e puxarem uma levada, aí os outros vão agregando. Que nem uma banda. A gente também pega ritmos e toca nos nossos instrumentos pra ver o que acontece e vai executando. Como a gente faz performance, é legal que esses instrumentos se movam, que a gente possa se movimentar enquanto toca, que a gente possa trocar de instrumento um com o outro, isso dá uma dinâmica muito grande pro trabalho. Enfim, às vezes o processo de criação é totalmente racional, a gente escreve ritmos e vê o que acontece; e às vezes é totalmente sentimental, vai tocando, ficou legal, repete e repete pra não esquecer, grava, às vezes filma. É mais ou menos assim.”

 

A partir dessa mistura de processos nasceu um punhado de músicas que finalmente ganharam seu registro definitivo em estúdio após ensaios exaustivos e inúmeros testes nas apresentações ao vivo. E são essas músicas – que vão do coco ao rock, do punk a uma espécie de música eletrônica orgânica, do samba aos sons indígenas, 18 músicas inéditas e autorais ao total – que começam a ser lançadas agora, pouco a pouco. “O grupo é um fruto dessa árvore de ensino e aprendizagem e espero que outros frutos dessa magnitude brotem porque tem muito mais coisa pra acontecer”. Como se vê (e se ouve), a máquina de criar sons chamada Embatucadores ainda vai deixar mais gente sem ação diante de tantas belezas musicais.

 

Dafne Sampaio, julho 2019

 

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